Como conhecer os sons que povoaram o passado das cidades? Até o final do século XIX não havia tecnologia capaz de armazenar os sons. É na palavra escrita que encontramos alguns vestígios dos antigos sons. Nas descrições literárias da vida urbana em geral podemos captar fragmentos sonoros que nos permitem "escutar" as paisagens sonoras das diferentes épocas. Desde 2002, com a pesquisa desenvolvida para a tese de doutoramento "PAISAGENS SONORAS E IDENTIDADES URBANAS - Os sons nas crônicas cariocas e as transformações do bairro de Copacabana (1905-1968)", de Andrea Queiroz Rego, um grande número de fragmentos sonoros vem sendo estudados, permitindo revelar um pouco as paisagens sonoras da Cidade do Rio de Janeiro em suas diferentes épocas. Os fragmentos sonoros são coletados dos relatos de escritores notáveis, as testemunhas auditivas, e organizados tanto em Períodos Sonoros de tempo quanto em Grupos Sonoros, categorias relacionadas com a fonte sonora.
As Testemunhas Auditivas: os Escritores-Ouvintes
São consideradas Testemunhas Auditivas, os Escritores‑Escutadores, cronistas selecionados no enorme universo dos escritores cariocas, com notório reconhecimento no meio literário brasileiro. Julgou‑se de grande importância manter a fidelidade lingüística nas transcrições de todos os relatos literários - os fragmentos sonoros, conservando‑se a grafia, a acentuação, a onomatopéia e todos os demais recursos estilísticos adotados pelos escritores ao se expressarem, por se constituir o modo como representam a paisagem urbana e seus respectivos sons.